Durante o tratamento contra o câncer, manter o corpo hidratado é essencial — mas sei, por experiência com meus pacientes, que nem sempre é fácil. Náuseas, mudanças no paladar e desconforto digestivo tornam o simples ato de beber água um verdadeiro desafio. A boa notícia é que, com algumas mudanças simples na rotina, você pode se hidratar melhor e com mais conforto.

Por que a hidratação é tão importante durante o tratamento de câncer

A quimioterapia, a radioterapia e outros tratamentos oncológicos costumam trazer efeitos colaterais como vômitos, diarreia, boca seca e redução do apetite. Isso tudo aumenta o risco de desidratação.

E quando o corpo está desidratado, ele sofre mais: há maior cansaço, tontura, dificuldade para digerir alimentos, alterações na pressão e até redução da resposta ao próprio tratamento. A água, além de manter o funcionamento dos rins e do intestino, ajuda a regular a temperatura corporal e a eliminar toxinas.

Quantidade recomendada de líquidos por dia (e por que pode variar)

A média geral recomendada é de 2 a 2,5 litros de líquidos por dia. No entanto, isso pode mudar para mais ou menos dependendo dos efeitos colaterais, da perda de líquidos e das orientações específicas para o seu tipo de câncer e tratamento.

É importante lembrar: não espere sentir sede para beber água. A sede, nesse caso, pode já indicar um nível de desidratação.

Quando beber: evitando água nas refeições e preferindo pequenos goles ao longo do dia

Uma dica que dou com frequência aos meus pacientes: evite beber água durante as refeições principais. Isso porque ingerir grandes volumes de líquido junto com a comida pode intensificar o enjoo e atrapalhar a digestão.

O ideal é fracionar a ingestão ao longo do dia, em pequenos goles — e sempre fora dos horários das refeições. Isso facilita a absorção e evita o desconforto.

Outras formas de manter a hidratação (além da água pura)

Nem sempre a água é bem tolerada, e está tudo bem. Existem outras formas de se hidratar:

  • Chás naturais e sem cafeína

  • Água de coco

  • Sucos diluídos

  • Caldos caseiros leves

  • Frutas com alto teor de água: melancia, melão, laranja, pera

  • Smoothies, gelatinas e picolés naturais

Essas opções são especialmente úteis quando o paladar muda e o paciente rejeita sabores que antes tolerava bem.

Dicas práticas para tornar a hidratação mais leve e regular

Aqui estão algumas estratégias que oriento no consultório:

  • Tenha uma garrafinha sempre por perto: o visual ajuda a lembrar de beber.

  • Use lembretes no celular: principalmente para quem esquece ou está mais fatigado.

  • Adicione sabor à água: rodelas de limão, hortelã ou pedaços de frutas deixam a água mais agradável.

  • Coma alimentos ricos em água: além de hidratar, ajudam na nutrição.

  • Observe sinais do corpo: urina escura, boca seca, fraqueza ou tontura são sinais de alerta.

Quando buscar apoio profissional / cuidados especiais

Se você estiver com vômitos frequentes, febre alta, diarreia ou sudorese intensa, converse com sua equipe médica. Pode ser necessário ajustar a alimentação, incluir eletrólitos ou até fazer hidratação intravenosa.

Também é importante buscar ajuda se houver dor ao engolir, mucosite (feridas na boca) ou qualquer outro obstáculo que impeça a ingestão adequada de líquidos.

Conclusão

A hidratação pode parecer um detalhe, mas durante o tratamento oncológico ela se transforma em um cuidado essencial. Fracionar a ingestão, evitar líquidos nas refeições, escolher alternativas suaves e observar os sinais do seu corpo fazem toda a diferença para o seu bem-estar.

Cuide-se com gentileza. Lembre-se de que seu corpo está fazendo um esforço imenso, e a água é um dos recursos mais simples e poderosos para ajudá-lo nesse processo.


(Por nutricionista oncológica, Socorro Coêlho.)

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