E por que a resposta não é o que você espera

Tinha chegado do mercado. Coloquei as folhas na pia e me lembrei de uma cena que se repete quase toda semana no consultório.

A pessoa senta na cadeira, respira fundo e pergunta:

“Doutora, o que eu preciso cortar para prevenir câncer?”


A pergunta que vem com medo

Quase sempre vem acompanhada de medo. Às vezes, de culpa.

A pessoa já leu sobre açúcar. Sobre leite. Sobre carne vermelha, glúten, acidez, detox. Chegou ao consultório com uma lista mental de suspeitos e esperando que eu aponte o vilão.

Só que não é bem assim que funciona.


O que a ciência realmente diz

As recomendações da American Cancer Society e do World Cancer Research Fund falam muito menos em alimento proibido e muito mais em rotina.

O que aparece nas evidências:

  • Mais vegetais, frutas, feijões e grãos integrais
  • Manutenção de peso saudável
  • Movimento regular
  • Menos álcool e menos ultraprocessados

Nenhum vilão único. Nenhum corte radical que resolve tudo sozinho.


O que eu vejo no consultório

O que mais pesa, na prática, costuma ser o padrão que se repete quando ninguém está prestando atenção.

O café apressado. O almoço improvisado. O jantar que vira ultraprocessado porque acabou a energia do dia.

Prevenção também mora nessas escolhas sem glamour, que ninguém posta, mas que voltam para o prato várias vezes por semana.


Mude a pergunta

Para quem vive com medo de errar, talvez o primeiro passo seja trocar a pergunta.

Em vez de “o que eu preciso cortar?”, tente:

“O que eu consigo colocar com mais frequência no meu dia?”


Por onde começar

Não precisa ser uma transformação radical. Comece por uma coisa visível:

  • Uma fruta que volta à mesa
  • Um feijão que aparece mais vezes na semana
  • Uma folha já lavada esperando na geladeira
  • Um jantar que passa a depender menos de pacote

Não precisa ser perfeito. Precisa ser real e consistente.


Por Dra. Socorro Coêlho, nutricionista oncológica.

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