
Uma seguidora recentemente me perguntou sobre o uso da creatina.
Essa é uma dúvida muito comum. A creatina é um suplemento bastante conhecido, amplamente utilizado por quem busca melhora de desempenho físico ou ganho de massa muscular. Em muitos contextos, ela é considerada segura.
Mas quando falamos de pacientes oncológicos, a resposta não costuma ser tão simples.
Cada caso precisa ser avaliado com cuidado, e a indicação precisa ser sempre individualizada.
o que é a creatina e por que ela é tão utilizada
A creatina é uma substância naturalmente produzida pelo nosso organismo e também encontrada em alimentos como carnes e peixes. No corpo, ela atua principalmente no fornecimento rápido de energia para os músculos.
Por isso, a suplementação de creatina se tornou bastante popular entre pessoas que praticam atividade física, atletas e também indivíduos que buscam melhorar força muscular e desempenho.
Na maioria das pessoas saudáveis, a creatina monohidratada é considerada segura quando utilizada nas doses recomendadas. Existem centenas de estudos avaliando sua segurança, e ela é aprovada pela Anvisa para uso como suplemento alimentar.
No entanto, quando falamos de pessoas que estão em tratamento oncológico ou em acompanhamento após o tratamento, alguns fatores precisam ser analisados com mais atenção.
por que pacientes oncológicos precisam de uma avaliação individualizada
Durante o tratamento do câncer, o organismo pode passar por diversas alterações metabólicas. Além disso, muitos pacientes enfrentam perda de massa muscular, fadiga intensa e redução da força física.
Nesse contexto, algumas pesquisas sugerem que a creatina poderia contribuir para a recuperação muscular e melhora da capacidade funcional.
Mas isso não significa que a suplementação seja automaticamente indicada para todos.
Alguns pontos precisam ser considerados, como:
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tipo de tumor
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estágio da doença
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tipo de tratamento realizado (quimioterapia, radioterapia, imunoterapia)
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função renal e hepática
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presença de outras doenças associadas
Certos tratamentos oncológicos já exigem maior cuidado com os rins ou com o fígado. Como a creatina pode alterar exames laboratoriais relacionados à função renal, é fundamental avaliar se o organismo do paciente está apto para receber esse suplemento.
existem riscos no uso da creatina durante o tratamento?
Não existe uma contraindicação absoluta para o uso de creatina em pacientes oncológicos. No entanto, as sociedades médicas e profissionais de saúde costumam recomendar cautela.
Isso acontece porque as evidências científicas específicas em pacientes com câncer ainda são limitadas.
Alguns estudos experimentais em animais apresentam resultados diferentes entre si. Em alguns cenários, a creatina parece ter efeitos potencialmente benéficos; em outros, surgem dúvidas sobre possíveis interações com o metabolismo tumoral.
Nos estudos em humanos, ainda não existe um consenso definitivo.
Por isso, a recomendação mais segura continua sendo a avaliação individual antes de iniciar qualquer suplementação.
possíveis benefícios em alguns contextos
Apesar das cautelas necessárias, alguns estudos investigam o uso da creatina como estratégia para ajudar pacientes que sofreram perda significativa de massa muscular durante o tratamento.
Entre os benefícios que vêm sendo estudados estão:
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melhora da força muscular
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auxílio na recuperação de massa magra
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redução da fadiga
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melhora da capacidade funcional
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apoio à qualidade de vida
Esses efeitos podem ser particularmente relevantes para pacientes que apresentam sarcopenia ou grande perda de peso associada ao tratamento.
Mesmo nesses casos, a suplementação precisa ser acompanhada e monitorada.
quando a creatina pode ser considerada
Se houver indicação, a dose geralmente utilizada em adultos costuma variar entre 3 e 5 gramas por dia. No entanto, essa decisão nunca deve ser feita de forma isolada.
O nutricionista oncológico ou o médico responsável precisa avaliar exames laboratoriais, histórico clínico, medicamentos em uso e a real necessidade da suplementação.
Além disso, em muitos casos, estratégias alimentares bem estruturadas já conseguem oferecer suporte importante para recuperação nutricional e muscular.
o mais importante: evitar a automedicação
A internet e as redes sociais trouxeram muita informação sobre suplementos, mas também aumentaram o risco de automedicação.
Nem tudo que é seguro para a população geral será automaticamente adequado para quem está enfrentando um tratamento oncológico.
Por isso, antes de iniciar qualquer suplemento — incluindo a creatina — o ideal é sempre conversar com um profissional capacitado.
O cuidado nutricional no câncer precisa ser personalizado, considerando a história de cada paciente, suas necessidades e o momento do tratamento.
E é justamente essa individualização que garante mais segurança e melhores resultados ao longo do processo.
Por Socorro Coêlho, nutricionista oncológica.
