
Muita gente viu na mídia nesses últimos dias a manchete afirmando que o agrião seria “letal” para o câncer. a repercussão surgiu após a apresentação de um estudo ligado a Harvard, e vale esclarecer o que a ciência realmente indica sobre isso.
vegetais crucíferos: como funcionam biologicamente
os vegetais do grupo dos glicosinolatos — que incluem brócolis, couve‑flor, repolho, rúcula, agrião e couve‑de‑bruxelas — liberam compostos bioativos chamados isotiocianatos quando mastigados. esses compostos têm três ações com relevância biológica:
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redução do fluxo sanguíneo que poderia favorecer células tumorais;
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estímulo à eliminação de células defeituosas;
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proteção do DNA de células saudáveis.
esses mecanismos são consistentes com o que já se observa há anos em pesquisas nutricionais, e ajudam a explicar por que padrões alimentares ricos nesses vegetais tendem a estar associados a menor risco de algumas doenças crônicas.
o que isso não significa
é importante entender que isso não transforma o agrião ou outros vegetais em tratamento oncológico. eles não substituem terapias clínicas, e não têm a capacidade de reverter um tumor por conta própria. o que essas plantas podem fazer é contribuir de forma complementar, funcionando como moduladores metabólicos dentro de uma alimentação equilibrada e anti‑inflamatória — algo que pode melhorar a resposta global ao tratamento médico.
a forma de consumo faz diferença
outro ponto crítico é a forma como esses vegetais são consumidos. o calor pode destruir boa parte dos compostos responsáveis pelo efeito protetor descrito no estudo. para preservar esse potencial:
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prefira o consumo cru, em saladas bem lavadas;
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ou em preparações frias, como sucos verdes batidos na hora.
quando cozidos, grande parte dos isotiocianatos é perdida, e o efeito biológico observado nas pesquisas fica reduzido.
nutrição oncológica baseada em evidências
a nutrição oncológica não trabalha com promessas simplistas ou soluções mágicas, mas com evidências científicas que consideram o quadro clínico integral do paciente. e as evidências mostram que:
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a alimentação adequada pode apoiar o organismo durante o tratamento e na prevenção de recidivas;
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ela nunca substitui o tratamento médico prescrito pela equipe de saúde.
uma dieta rica em vegetais variados, fibras, gorduras saudáveis e alimentos minimamente processados faz parte de um estilo de vida que favorece melhor saúde metabólica e imunológica — isso está longe de ser um “remédio único”, mas é um pilar importante da prevenção e do cuidado contínuo.
por Socorro Coêlho, nutricionista oncológica.
