Antes de encher o carrinho da farmácia com cápsulas, vitaminas e fórmulas que prometem “fortalecer a imunidade”, vale fazer uma pausa e olhar para o que já está ao seu alcance no dia a dia.

Muitos nutrientes importantes para o funcionamento do sistema imunológico estão presentes em alimentos simples, encontrados na feira ou no supermercado. Laranja, acerola, caju, carnes, feijão, sementes, ovos e peixes podem contribuir para uma alimentação mais completa sem a necessidade de comprar vários produtos por conta própria.

Para quem está em tratamento oncológico, esse cuidado precisa ser ainda mais consciente. O organismo pode enfrentar alterações no apetite, no paladar, na digestão e na absorção de nutrientes. Ao mesmo tempo, alguns suplementos podem interferir na ação de medicamentos utilizados durante o tratamento.

Isso não significa que suplementos nunca sejam necessários. Significa apenas que eles precisam ter uma indicação clara.

Em muitos casos, o primeiro passo está no prato.

Suplemento não é sinônimo de imunidade mais forte

Vitamina C, zinco e vitamina D têm funções importantes no organismo. No entanto, consumir doses maiores não significa, automaticamente, ter uma defesa melhor contra infecções ou enfrentar o tratamento com mais segurança.

O sistema imunológico é complexo e depende de vários fatores, como:

  • Estado nutricional;
  • Quantidade adequada de proteínas e energia;
  • Qualidade do sono;
  • Funcionamento intestinal;
  • Controle de doenças associadas;
  • Tipo de tratamento realizado;
  • Uso de medicamentos;
  • Presença ou ausência de deficiências nutricionais.

Nenhum nutriente trabalha sozinho. Por isso, não existe uma cápsula capaz de compensar uma alimentação insuficiente, a perda de peso ou a falta de acompanhamento profissional.

Também é importante lembrar que o zinco, embora seja frequentemente mencionado ao lado das vitaminas, é um mineral.

Vitamina C: a feira oferece muito mais do que laranja

A vitamina C participa do funcionamento do sistema imunológico, atua como antioxidante e ajuda o organismo a absorver o ferro presente em alimentos de origem vegetal.

A laranja é uma fonte conhecida, mas está longe de ser a única opção. No Brasil, encontramos alimentos com boas quantidades desse nutriente e que podem fazer parte de diferentes refeições.

Entre eles estão:

  • Acerola;
  • Caju;
  • Goiaba;
  • Kiwi;
  • Laranja;
  • Tangerina;
  • Mamão;
  • Morango;
  • Pimentão;
  • Brócolis;
  • Tomate.

A variedade é mais importante do que insistir em um único alimento todos os dias. Uma fruta pode acompanhar o café da manhã, ser consumida no lanche ou entrar como sobremesa após o almoço.

Para pacientes com feridas na boca, sensibilidade ou mucosite, frutas muito ácidas podem causar desconforto. Nesse caso, a nutricionista pode recomendar outras fontes de vitamina C ou adaptar a forma de consumo.

O objetivo não é obrigar o paciente a comer um alimento que provoca dor, mas encontrar alternativas compatíveis com a fase do tratamento.

Vitamina C em altas doses não deve ser usada por conta própria

É comum encontrar suplementos com doses muito superiores às necessidades diárias. O fato de a vitamina C ser conhecida e facilmente comprada não significa que seu uso em altas doses seja inofensivo ou indicado para todos.

Durante o tratamento oncológico, qualquer suplemento antioxidante precisa ser comunicado à equipe assistencial. A segurança pode variar conforme o medicamento, a dose, a via de administração e o quadro clínico do paciente.

A vitamina encontrada naturalmente nos alimentos faz parte de uma alimentação equilibrada. Já o suplemento concentra uma quantidade muito maior em uma única dose, o que exige outro nível de cuidado.

Zinco: defesa do organismo, formação de tecidos e cicatrização

O zinco participa de diversas reações no corpo. Ele contribui para o funcionamento do sistema imunológico, para a produção de proteínas e material genético e para os processos de reparação dos tecidos.

Esse mineral pode ser encontrado em:

  • Carnes bovinas;
  • Frango;
  • Peixes e frutos do mar;
  • Ovos;
  • Leite e derivados;
  • Feijão;
  • Grão-de-bico;
  • Castanhas;
  • Amendoim;
  • Sementes de abóbora.

As fontes animais costumam oferecer zinco com boa absorção. Feijões, castanhas e sementes também contribuem para o consumo diário e podem ser combinados com outros alimentos.

Uma refeição com arroz, feijão, carne ou frango e vegetais, por exemplo, já reúne proteínas, minerais, fibras e vitaminas importantes.

Não é preciso transformar a alimentação em uma lista complicada de ingredientes caros. Muitas vezes, a base tradicional do prato brasileiro já oferece nutrientes relevantes quando existe variedade e quantidade adequada.

Mais zinco nem sempre significa mais proteção

O zinco é essencial, mas o excesso também pode causar efeitos indesejados. Doses elevadas e utilizadas por períodos prolongados podem provocar náuseas, alterações gastrointestinais e desequilíbrios na absorção de outros minerais.

Por isso, não é recomendado iniciar a suplementação apenas porque o rótulo promete melhorar a imunidade ou acelerar a cicatrização.

Quando existe suspeita de deficiência, baixa ingestão alimentar ou uma necessidade clínica específica, a equipe pode avaliar a quantidade e o período de uso.

Vitamina D: alimentação, exposição solar e avaliação individual

A vitamina D participa da saúde óssea, da função muscular e da regulação de diferentes processos do organismo, incluindo respostas do sistema imunológico.

Diferentemente da vitamina C, ela não aparece naturalmente em grandes quantidades em muitos alimentos.

Algumas fontes são:

  • Sardinha;
  • Salmão;
  • Atum;
  • Cavala;
  • Gema de ovo;
  • Fígado;
  • Leites e bebidas fortificadas;
  • Iogurtes fortificados;
  • Outros produtos enriquecidos com vitamina D.

Iogurte e queijo não devem ser considerados automaticamente boas fontes. A quantidade depende da composição e da fortificação do produto, por isso é necessário observar o rótulo.

A exposição da pele à luz solar também participa da produção de vitamina D. No entanto, não existe uma recomendação única de tempo que seja segura e suficiente para todas as pessoas. Horário, local, idade, tom de pele, roupas, uso de protetor e condições clínicas influenciam esse processo.

Para pacientes oncológicos, a orientação deve ser ainda mais individualizada. Alguns medicamentos podem aumentar a sensibilidade da pele, e determinadas condições exigem cuidados adicionais com o sol.

Toda pessoa em tratamento oncológico precisa suplementar vitamina D?

Não.

A necessidade de suplementação pode ser considerada quando existe deficiência confirmada, baixa exposição solar, ingestão insuficiente, alterações de absorção ou outros fatores clínicos.

A decisão costuma envolver avaliação da alimentação, histórico de saúde, medicamentos utilizados e, quando indicado, exames laboratoriais.

Tomar vitamina D sem orientação pode levar ao consumo de doses inadequadas. Como ela é uma vitamina lipossolúvel, o excesso pode se acumular no organismo e causar complicações.

Suplementar não deve ser um ato automático. Deve ser uma conduta planejada.

Por que pacientes oncológicos precisam ter mais cuidado com suplementos?

Produtos vendidos sem receita podem parecer inofensivos, mas suplementos, ervas, chás concentrados e compostos naturais também possuem substâncias ativas.

Dependendo do caso, eles podem:

  • Alterar a absorção de medicamentos;
  • Interferir no metabolismo de algumas drogas;
  • Aumentar ou reduzir determinados efeitos;
  • Elevar o risco de sangramento;
  • Sobrecarregar fígado ou rins;
  • Causar excesso de vitaminas e minerais;
  • Agravar náuseas, diarreia ou outros sintomas.

Esse cuidado não significa que todo suplemento seja proibido. Significa que a equipe precisa saber exatamente o que o paciente está usando.

Uma cápsula prescrita para corrigir uma deficiência é diferente de vários produtos comprados por impulso e utilizados ao mesmo tempo.

Antes de iniciar qualquer suplemento, mostre o rótulo ao oncologista e à nutricionista. Informe o nome, a dose, a frequência e todos os outros produtos que fazem parte da rotina.

Quando o suplemento pode ter seu lugar?

Existem situações em que a alimentação, sozinha, pode não ser suficiente para atender às necessidades do paciente.

Isso pode acontecer diante de:

  • Deficiência nutricional identificada;
  • Perda de peso involuntária;
  • Falta de apetite persistente;
  • Náuseas ou vômitos;
  • Alterações importantes no paladar;
  • Feridas na boca;
  • Dificuldade para mastigar ou engolir;
  • Diarreia prolongada;
  • Alterações na absorção intestinal;
  • Dietas muito restritivas;
  • Aumento das necessidades nutricionais.

Nesses casos, a suplementação pode ser importante e fazer parte do tratamento nutricional. A diferença está no propósito: ela é usada para atender a uma necessidade real, com dose e acompanhamento definidos.

A imunidade não depende apenas de três nutrientes

Vitamina C, zinco e vitamina D merecem atenção, mas não são os únicos elementos envolvidos na defesa do organismo.

Proteínas, gorduras, carboidratos, ferro, selênio, vitaminas A, E e do complexo B, além de outros nutrientes, também participam da manutenção dos tecidos e das funções corporais.

Por isso, não adianta consumir uma grande quantidade de vitamina C e deixar de comer proteínas, por exemplo.

Durante o tratamento oncológico, preservar massa muscular, evitar a desnutrição e garantir energia suficiente pode ser tão importante quanto observar vitaminas específicas.

O prato precisa ser visto como um conjunto.

Como colocar esses nutrientes na rotina

Não é necessário montar refeições perfeitas. O mais importante é construir uma alimentação possível, variada e adaptada aos sintomas.

Algumas combinações simples incluem:

  • Mamão, kiwi, acerola ou caju no café da manhã;
  • Arroz, feijão, carne ou frango e legumes no almoço;
  • Iogurte fortificado acompanhado de fruta;
  • Ovo com pão ou tapioca;
  • Sementes de abóbora adicionadas a preparações, quando bem toleradas;
  • Sardinha em refeições ou lanches;
  • Sopa com legumes e uma fonte de proteína;
  • Vitamina de frutas preparada de acordo com a tolerância do paciente.

As escolhas precisam respeitar o apetite, a capacidade de mastigação, os sintomas gastrointestinais e as orientações de segurança alimentar.

Em determinados momentos, o paciente pode conseguir comer apenas pequenas porções. Nesses casos, aumentar a densidade nutricional das refeições pode ser mais útil do que insistir em grandes volumes.

Não transforme a alimentação em mais uma fonte de culpa

Quem está em tratamento oncológico pode enfrentar dias de cansaço, náusea, falta de apetite e mudanças no sabor dos alimentos.

Nem sempre será possível comer como antes. Isso não representa falta de esforço.

A nutrição oncológica não deve impor culpa nem prometer que um alimento isolado controlará a doença. Seu papel é ajudar o paciente a encontrar estratégias possíveis para manter o estado nutricional, reduzir dificuldades e atravessar o tratamento com mais suporte.

Às vezes, comida de verdade vem primeiro. Em outras situações, um suplemento corretamente indicado será necessário. O cuidado está em saber diferenciar uma situação da outra.

Antes de comprar, faça estas perguntas

Antes de levar um suplemento para casa, reflita:

Existe uma deficiência identificada?

Minha equipe sabe que pretendo usar esse produto?

Ele pode interagir com meu tratamento?

A dose é adequada para mim?

Esse nutriente já está presente na minha alimentação?

Estou comprando por necessidade ou por causa de uma promessa no rótulo?

Essas perguntas podem evitar gastos desnecessários e proteger sua saúde.

Comida de verdade vem primeiro, mas cada caso é único

Vitamina C, zinco e vitamina D participam do funcionamento adequado do organismo. É possível encontrar muitos desses nutrientes em alimentos acessíveis, sem depender automaticamente de cápsulas.

Acerola, caju, laranja, carnes, feijão, ovos, sementes e peixes são exemplos de escolhas que podem contribuir para uma alimentação mais variada.

Suplemento tem seu lugar, principalmente quando existe deficiência, baixa ingestão ou outra necessidade clínica. Mas, durante o tratamento oncológico, ele não deve ser iniciado por conta própria.

Antes de gastar dinheiro na farmácia, olhe para o prato e converse com os profissionais que acompanham seu tratamento.

A sua nutrição pode começar na feira e no supermercado, sempre respeitando as necessidades do seu organismo e o momento que você está vivendo.

Por Dra. Socorro Coêlho, nutricionista oncológica.

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