Desde criança eu escuto: “ata faz mal, é reimosa, causa tosse e piora gripe.” E agora, na época da ata, isso volta com tudo no meu consultório. Pacientes com câncer chegam com medo, evitando a fruta sem saber o porquê.

Esse medo tem um nome. Chama-se “reima”, uma crença popular muito enraizada no Nordeste que classifica certos alimentos como capazes de causar inflamação, atrasar a cicatrização ou piorar doenças. A ata é uma das frutas mais citadas nessa lista. E quando o paciente está em tratamento oncológico, qualquer palavra de aviso vira lei. O problema é quando essa lei não tem base científica e começa a prejudicar a nutrição de quem mais precisa comer bem.

O que a literatura científica diz sobre isso

Na minha formação acadêmica e na literatura científica disponível, não existe comprovação de que a fruta ata cause inflamação, provoque gripe ou precise ser proibida para qualquer grupo de pessoas, incluindo pacientes em tratamento oncológico. O conceito popular de alimento “reimoso” não encontra respaldo em estudos clínicos ou nutricionais.

Ou seja: o problema não é a ata. O problema é o medo que faz o paciente parar de se alimentar bem. E no contexto do câncer, retirar alimentos nutritivos sem necessidade clínica pode piorar o estado nutricional e comprometer diretamente a resposta ao tratamento.

Crença popular

A ata é reimosa, causa inflamação, piora gripe e deve ser evitada por quem está doente.

O que a ciência mostra

Não há evidência científica que sustente a proibição da ata para pacientes, incluindo os oncológicos.

O que a ata realmente oferece ao organismo

Annona squamosa, conhecida popularmente como ata ou pinha, é uma fruta tropical com perfil nutricional interessante. Longe de ser uma vilã, ela é descrita na literatura como fonte de vitaminas, minerais e compostos antioxidantes que fazem parte de uma alimentação equilibrada.

🍊

Vitamina C
Suporte imunológico e ação antioxidante
🫀

Potássio
Equilíbrio eletrolítico e função muscular
🌿

Antioxidantes
Compostos que combatem o estresse oxidativo

Carboidratos
Fonte de energia de fácil digestão
🦷

Cálcio e fósforo
Suporte ósseo e funções celulares
🔬

Vitaminas do complexo B
Metabolismo energético e função neurológica

Por que isso importa tanto no contexto do câncer

A desnutrição é uma das complicações mais sérias durante o tratamento oncológico. Ela reduz a tolerância à quimioterapia e à radioterapia, aumenta o risco de infecções, prejudica a cicatrização e piora significativamente a qualidade de vida. Quando um paciente elimina alimentos nutritivos por conta de crenças sem base científica, o prejuízo é real e mensurável.

A ata é uma fruta acessível, doce, energética e bem tolerada pela maioria das pessoas. Para pacientes com dificuldade de se alimentar, perda de apetite ou que precisam aumentar o aporte calórico, ela pode ser uma aliada, não uma ameaça.

Importante: toda restrição alimentar durante o tratamento oncológico deve ser orientada pelo nutricionista ou pela equipe de saúde responsável. Retirar alimentos por conta própria, baseado em crenças populares, pode ter consequências nutricionais sérias. Se tiver dúvidas sobre algum alimento específico, leve para a sua consulta.

Uma exceção que merece atenção: sementes e folhas da Annona squamosa possuem compostos que não devem ser consumidos. A parte comestível e segura é a polpa da fruta. Como qualquer alimento, o contexto e a forma de consumo importam.

O papel do nutricionista diante das crenças alimentares

Não é função do nutricionista ignorar o que o paciente acredita ou desconstruir sua cultura de forma abrupta. Muitas dessas crenças vêm de gerações, de memórias afetivas, de cuidado familiar. O que cabe a nós, profissionais, é acolher, escutar e depois orientar com base em evidências.

Quando um paciente chega ao meu consultório com medo da ata, eu ouço com atenção. E depois explico, com calma, o que os estudos mostram. Porque a informação correta, dada com respeito, tem o poder de devolver ao paciente algo muito precioso: a liberdade de comer bem sem culpa e sem medo.

Conhece alguém que está em tratamento e evita a ata com medo de que ela faça mal? Compartilhe esse post. Às vezes, uma informação simples e bem explicada é tudo que o paciente precisa para comer melhor e viver com mais qualidade durante o tratamento.

Por Socorro Coêlho, nutricionista oncológica.

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