A insatisfação com o peso aparece com frequência nas conversas do consultório. Antes de se cobrar ou cortar alimentos por conta própria, vale entender o que está acontecendo de verdade.

Uma mudança que ninguém avisa direito

Você entra no tratamento focada em superar a doença. E aí, ao longo dos meses, percebe que a imagem no espelho mudou mais do que esperava. O corpo parece diferente. A roupa não fecha da mesma forma. E, junto com tudo isso, vem a cobrança: será que estou errando em alguma coisa?

Essa pergunta aparece com frequência aqui no consultório. E a resposta, quase sempre, começa pelo mesmo lugar: entender o que realmente está acontecendo no organismo durante esse período.

Esse aumento de peso não surge do nada e nem significa falta de esforço. Ele tem causas concretas, que precisam ser olhadas com cuidado antes de qualquer decisão alimentar.

O que o metabolismo enfrenta durante o tratamento

O organismo, nesse período, está lidando com muito mais do que parece. O tratamento oncológico afeta o metabolismo de formas que vão muito além do que se come ou se deixa de comer. O corpo está em constante adaptação, tentando manter tudo funcionando dentro do possível em meio a um processo intenso.

Alguns fatores se repetem com frequência e ajudam a explicar as mudanças no peso:

01

Corticoides e medicamentos associados ao tratamento

Muitas terapias utilizam corticosteroides que alteram diretamente o metabolismo, aumentam a retenção de líquidos e estimulam o apetite, especialmente para alimentos mais calóricos.

02

Retenção hídrica

O acúmulo de líquido no corpo é comum durante o tratamento e pode se traduzir em ganho de peso no número da balança que não corresponde a gordura corporal.

03

Redução da atividade física

A fadiga oncológica limita o movimento. Com menos atividade, o gasto energético cai e a composição corporal muda, mesmo sem aumento na ingestão alimentar.

04

Alterações hormonais

Alguns tratamentos afetam diretamente a produção hormonal, o que influencia o metabolismo basal, a distribuição de gordura e a sensação de fome.

05

Relação emocional com a alimentação

O peso emocional do diagnóstico e do tratamento é real. Ansiedade, medo e luto pelo próprio corpo afetam os hábitos alimentares de formas que merecem atenção sem julgamento.

“Cortar alimentos por conta própria, sem entender o que está causando a mudança, não resolve. Em muitos casos, piora.”

O que não fazer nesse momento

A primeira reação de muitas mulheres é partir para a restrição alimentar. Reduzir carboidratos, cortar grupos inteiros de alimentos, iniciar uma dieta por conta própria. A intenção é compreensível, mas o caminho pode ser prejudicial.

Durante o tratamento oncológico, o corpo precisa de nutrição adequada para responder melhor às terapias, manter a massa muscular e sustentar o sistema imunológico. A restrição sem orientação pode comprometer justamente esses processos.

Se você está se olhando no espelho e sentindo que algo mudou, saiba que esse sentimento é válido. O corpo passou por muito. E continua passando.

Mas a resposta não está na autocrítica nem na restrição sem orientação. Está em entender o que acontece e construir uma estratégia que respeite o momento do seu organismo.


O próximo passo

Cada caso tem particularidades. O que está causando a mudança no peso varia de acordo com o tipo de tratamento, os medicamentos utilizados, o momento do ciclo e o histórico de cada pessoa. Por isso, a avaliação nutricional individualizada é o caminho mais seguro e eficaz.

Nutrição oncológica não é sobre emagrecer durante o tratamento. É sobre nutrir o corpo da forma certa para que ele passe por esse período da melhor maneira possível.

Se você está passando por isso ou conhece alguém que está se cobrando demais, compartilhe esse texto. Às vezes, o que mais ajuda é entender o que está acontecendo.

Por Socorro Coêlho, nutriiconista oncológica.

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